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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

De jogador equatoriano famoso a microempresário no Brasil



Júlio César na estrada do Equador - Arquivo Pessoal

Nuvens carregadas ameaçavam chover a qualquer hora na tarde de hoje, mesmo assim, pego minha motoca em busca de mais um personagem. Desta vez, indicado por Chango o dono da (El pincel viajeiro). Pelas descrições do peruano, procuro um rapaz franzino, de traços indígenas e com sotaque Castelhano/português e proprietário de um lanche.

No bairro indicado, ninguém o conhece, até que estaciono próximo a um comércio e pergunto: - Conhece algum equatoriano?

Assustado, Júlio César Hernandes, de 26 anos, respondeu que é equatoriano, e retribuiu minha pergunta com um olhar de medo, curiosidade e esperança.

Tiro o capacete, cumprimento-o, me identifico e pergunto se poderíamos conversar. Levou-me até a sua casa que fica a poucos metros do rio Acre para mostrar como vive com sua namorada, o que faz no Brasil e relatar a sua interessante história de vida.

Chegando a sua residência humilde, cedida pelo sogro, me convidou para entrar e a chuva que ameaçava cair, desabou por longas horas. Mesmo assim, começamos a papear, e ele disse que enfrentou cinco dias dentro do ônibus para realizar um sonho em terras brasileiras, ou melhor, nos gramados dos times do país; ser jogado do flamengo e conhecido que nem o Zico.

Júlio é um famoso jogador profissional de futebol. Em Guayaquil, cidade habitada por 85% da população negra do Equador, jogou pelo Sociedad Desportivo Quito um dos times mais famosos, depois da seleção equatoriana. Teve ainda participação na seleção do Equador na categoria sub-20.

Antes de falar sobre sua carreira e dos primeiros dribles no futebol, ele me explicou que seu pai também era atleta e que vivia numa cidade litorânea, junto da   sua mãe e mais quatro irmãs.             

Com seu time aos 6 anos - Arquivo Pessoal 

Pergunto sobre sua infância, e apontando para a chuva, diz que o cheiro e o barulho das águas trazem boas recordações como pescar ao lado do pai na beira do mar, das excursões que fazia com os amigos em busca da onda perfeita e da água de Jamaica que pegava dos coqueiros da serra.

Relatando sobre a viagem para cá, contou que foram longas horas abordo do ônibus e que passou por cidades estranhas e deslumbrou belíssimos cenários da natureza, como por exemplo, o sobrevou de uma flamingo próximo a sua janela.

Mais calmo e empolgado, fala da viagem para Argentina. Ao completar 18 anos e se revelando um craque, embarcou e desvendou as terras de Cristina Kirchner em busca de oportunidades, mas, sem sucesso.

De volta ao Equador, trabalhou como barman em um hotel que pertencia a uma família Judia. Conheceu e fez amigos da Alemanha, Brasil, França e Peru.

Conta ele que “um homem me reconheceu na fila de emprego e elogiou meu trabalho como jogador de futebol. O judeu, dono do estabelecimento, falou que não iria me contratar por não ter perfil para a vaga. O homem que estava na fila comentou que eu era muito bom no futebol. O judeu que gosta de futebol e tem um time mais que (não sabe jogar), me convidou para jogar, no entanto, recusei porque anteriormente havia frustrado na Argentina e o judeu me ameaçou dizendo que só me aceitaria como barman se fosse jogar no seu time. Como era trabalho, e no Equador é difícil, resolvi aceitar prontamente o emprego”, disse contando ainda que “depois de contratado, todos os dias, os judeus falavam seus idiomas o que me ajudou a compreender alguns costumes e crenças”.

O desembarque em terras de Zico, Pelé e Ronaldo.

Depois de reacender a chama no time do judeu, decidiu o equatoriano que precisava ir ao Brasil e vestir a camisa de algum clube, tudo por influencias do seu pai e desejo de conhecer os seus ídolos brasileiros.

Na primeira oportunidade, Júlio com 23 anos, saiu do litoral na fronteira do Equador e Colômbia, atravessou o Peru e chegou ao Brasil pelo Acre no final de setembro de 2009. Foram longos dias dentro do ônibus (ele não tomou banho por cinco dias e só comeu pequenos lanches).

Enfrentou uma saga para receber a autorização e o visto no país. Ao chegar a em Xapuri, foi abordado pela Polícia Federal ordenou retornar à Epitaciolândia para registra-lo no sistema. Sem dinheiro, Hernanes deve que retornar a pé, mas por sorte, conseguiu uma carona até a fronteira.

Típica pochete equatoriana - Foto: Wanglézio Braga

Peço que detalhe como a cultura do seu país, rapidamente, corre até o seu quarto e trouxe consigo uma bolsa contendo algumas miniaturas típicas do Equador. Entre os objetos apresentado, uma pochete, que dentro dela havia um cordão preto e uma minúscula bolsa vermelha.

Quando peguei o objeto, disse ele que 'sentirá medo após contar a história do cordão vermelho'. Na hora pergunto porque e responde que, "é comum nas aldeias indígenas do Equador, extrair pedaços de ossos dos ancestrais para atrair sorte. Nesse que você segura, carrego pedaços do dedo do meu avô", explicou rindo da minha expressão facial.

Dentro da bolsa havia pedaços de ossos - Foto: Wanglézio Braga

Depois da explicação macabra, mudei de assunto e perguntei o que ele mais acha de diferente no Brasil. Ele respondeu que algumas expressões são bem parecidas do seu idioma e outras um tanto inusitadas.

“Certa vez, esperava o autobus (ônibus em português) juntamente com um colombiano, e duas mulheres estavam próximas a mim, de repente, o ônibus se aproximou e gritei:- Vamos colar a buceta! (Vamos pegar o ônibus!)”.

A reação das mulheres que estavam próximas, não foi a melhor. Uma delas deu tapa no  braço  de Júlio, que prontamente explicou que estava referindo-se ao ônibus. “Sem entender, todos rimos muito até perder o ônibus”, esclareceu o vocabulário aparentemente chulo.

“Costumamos comer garapa de cana que se chama “Panela” no Equador. Quando cheguei a Rio Branco fui ao supermercado para comprar, infelizmente não achei. Pedi ajuda de um funcionário que me levou a seção de panelas. Fiz cara feia, pedi uma caneta e um pedaço de papel para desenhar o que queria. Ele trouxe e para a minha sorte, um rapaz que estuda na Bolívia explicou que no Brasil chama-se “Rapadura ou Açúcar Mascavo em barra” e não panela”, contou gargalhando.

Audácia na cafeteria e sua amada namorada

Comentando sobre o assédio das fãs e dos amores conquistados, o equatoriano revela que conheceu inúmeras mulheres inclusive uma americana.

“Trabalhei em Guayaquil numa cafeteria e lá cuidava de por café na xícara e entregava aos garçons. Num dia de trabalho encontrei uma cliente americana que pediu café expresso e ficou sentada aguardando. Ela era muito bonita, por minutos fiquei contemplando aquela beleza norte-americana. Correndo o risco de perder o emprego, aprontei e fui pessoalmente servi-la. Minha supervisora ficou muito chateada por essa atitude, afinal, existem garçons para servir. Mesmo assim, falei para americana que meu expediente terminava ás 9h e desejava muito conhecê-la. Ela concordou e voltei ao meu setor onde recebi uma advertência”, relatou e continuou, “namorei com ela por alguns anos onde aprendi falar inglês. Planejamos morar nos Estados Unidos, mas isso não foi possível por causa da burocracia americana. Ela foi embora e nunca mais nos falamos”, lembrou.

“Quando desembarque em Rio Branco as pessoas diziam que encontraria mulheres bonitas. Atestei quando conheci a minha atual namorada. Ela trabalhava num lanche no centro. Quando ela passava pela Gameleira meu coração palpitava. Certa vez a encontrei numa festa. Ela estava toda linda de cabelo encaracolado, maquiada e usava um batom que chamava atenção. Apaixonei-me mais ainda nessa hora. De repente, passei a visitar sua casa uma vez por semana e conversei com o seu pai sobre o nosso namoro, estamos juntos alguns meses e espero continuar com ela, pois é batalhadora, inteligente e bonita”.

Enfrentou dificuldades e não esqueceu o futebol

No Desportivo Quito- Arquivo Pessoal

Sendo um jogador famoso em seu país, Julio César, não teve muita sorte nos gramados brasileiros, ou seja, ainda não alcançou a fama desejada. Os times de futebol acreanos não os melhores do cenário nacional, mais foi que conseguiu por enquanto.

Contou que seu primo mora em Minas Gerais, e por lá, tentou agendar uma reunião com caçadores de talentos dos times mineiros, mas espera até hoje um contato dos contratadores.

No currículo, jogou uma temporada pelo Vasco mais foi demitido por não ter conseguido regularizar os documentos junto á embaixada. A regularização é um dos principais problemas que ele enfrentou nos últimos anos (ele e muitos outros estrangeiros que chegam à fronteira do Acre).

Contou que sua família insistentemente – por telefone ou internet – por seu regresse ao Equador, ele responde que “voltarei quando realmente conseguir os meus objetivos”, afirmou com muita convicção.

Para sobreviver em solo acreano, Hernanes trabalhou como barman e técnico de refrigeração, no entanto, o preconceito por ser estrangeiro foi à causa das demissões. Por isso, resolveu criar o próprio negócio e há três meses tornou-se um microempresário.

“Já que precisava trabalhar em alguma coisa, resolvi montar o meu próprio negócio. Comprava os salgados e revendia nas ruas. Como não deu certo, aprendi a produzir os lanche e abrir uma lanchonete com ajuda do meu sogro. Junto com a minha namorada produzimos 60 salgados por dia. Graças a Deus os negócios estão indo muito bem”, contou.
Empolgado, me contou que também trabalha com peças de artesanato, no entanto, por respeito à natureza e a biodiversidade amazônica, não confecciona a arte.

Indago sobre sua carreira no futebol, dos sonhos e do futuro. Suspirando, responde que “vou conseguir! Passou alguns anos, estou me acostumando com a cidade e a cultura do povo brasileiro. Corro diariamente pelas ruas, treino futebol com um grupo de pessoas e procuro contatos.  Deus está preparando algo de bom na minha vida, eu creio!”.

Encerro a história de hoje torcendo pelo sucesso de Júlio e resumo tudo que contei em  duas citações. Uma do trecho da música do Skank que reza; “Quem não sonhou em ser um jogador de futebol? Que emocionante é uma partida de futebol”, e a outra de Clarice Lispector que diz; “Sonhe com aquilo que você quiser. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer”.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Que o vosso sim, seja Sim!



Realizou o sonho de conhecer a cidade e ainda ganhou uma boneca - (Foto: Wanglézio Braga)


Andando pelo bairro da Base, avistei de longe, uma menina que se banhava com auxilio de uma panela nas margens do rio Acre. Surpreso pelo tamanho da criança e pela sincronia que ela agachava para pegar a água e passava a mão no rosto, tomei coragem e me aproximei e avistei um senhor sentado, juntamente com outras crianças enquanto uma mulher ao fundo fazia a comida. Muito curioso  resolvi averiguar aquela situação engraçada e divertida.

Mal sabia eu que aquelas pessoas seriam protagonistas de uma história rica e reflexiva. Sem dúvidas, a história do Sr. Raimundo Silveira do Nascimento, ribeirinho da fronteira entre Brasil/Peru e da sua família, é de sentar na proa do barco e tomar café de tão boa que ela é.

Em conversa rápida, ele contou que veio a Rio Branco, para cumprir uma promessa que fez há alguns dias a sua filha de nove anos.

O desejo da menina morena de cabelos encaracolados e sorrisos largos era conhecer os prédios da cidade e andar pelas lojas do centro.

Sr. Raimundo, que tem aproximadamente 40 anos, vem na capital uma vez no ano para fazer exames no hospital e consultar com o médico especialista em coluna. Na última viagem, levou consigo uma revista local onde havia fotos da cidade e do comércio central.

Fascinada pelas páginas da revista, a menina passou dias aperreando o pai para que a levasse até a cidade. O grande problema é que não existe estrada na região, ou seja, eles teriam que subir e descer o rio Acre, o que dura em média três dias e meio de viagem e cinco para retornar.

Sr. Raimundo prometeu e cumpriu. No finalzinho de maio, aproveitando que o rio estava secando, não pensou duas vezes e preparou a viagem. Trouxe consigo a esposa Dona Carmem (nova, digna de passagem), os três filhos homens (um já rapaz), uma sobrinha e as duas filhas.

Apressado pedi para tirar uma foto dele com sua família, envergonhado ele não autorizou. Daí, perguntei como foi à viagem, Raimundo respondeu que foi “difícil e perigosa, porque nosso barco enganchou em galhos secos e encalhamos por causa dos bancos de areia em alguns lugares e pegamos uma forte chuva”.

Perguntei em seguida como se alimentam e dormem durante a viagem. Ele respondeu que por questão de segurança param em diversas comunidades, dormem nas casas de parentes que também são ribeirinhos e evitam navegar de noite por causa da escuridão.

Esposa e dois filhos de Sr. Raimundo dentro do barco - (Foto: Wanglézio Braga)

Indaguei sobre o tamanho da canoa para oito pessoas, ele respondeu que viaja apenas um dia com ela e o restante faz no seu barco que está ancorado em uma comunidade.

Mesmo perplexo com a coragem dessa família e surpreendido pelo caráter do ribeirinho, não perdi tempo para refleti que ainda existe quem cumpra promessas. Prometer se tornou algo tão corriqueiro como trocar de roupas, para ele virou sinônimo de desafio, nobreza e honra.

Muitos podem pensar que isso é algo banal, mas, para um senhor doente não foi. Ele provou que, além de um bom nome, ir à capital de barco e apresentar o mundo para sua família é gostoso de ver. Afinal, ele veio com pouco dinheiro o que ainda deu para; levar sua filha ao mercado, ir ao médico e comprar algumas novidades.

Creio que para Sr. Raimundo não existe presente maior do que realizar sonho de sua filha de andar pelas ruas do centro e ainda presenteá-la com uma boneca. O sorriso pagou todos os dias que ficaram no barco e dos perigos enfrentados.

A conversa estava tão boa que nem queria ir embora, mas, como estava de passagem pelo local e cheio de afazeres tive que terminar a conversa e me despedir. 

Já de partida, perguntei a menina, já vestida, o que ela mais gostou da viagem e a resposta não poderia ser outra, “da minha boneca loira que peguei na loja grande”, respondeu ela toda esnobe com a sua mais nova aquisição.

Desejei boa viagem e pedi aos céus que abençoasse o retorno daquela família tão brasileira quanto a minha, mas, invejavelmente corajosa.

Tiro de lição que uma vez que tenha compromisso de honrar sua palavra, cumpra-o toda vez que puder, especialmente quando for fácil. Haverá muitas vezes em não poderá, ou em que isso será difícil. Se disser que vai ler uma história, faça isso. Se disser que vai sair para um passeio, faça-o. Se disser que vai consertar a bicicleta (e a casa não pegou fogo), faça isso.

Isso pode parecer um exagero. Mas o exagero ajuda quando estamos tentando estabelecer um novo comportamento para nós mesmos, especialmente quando estes comportamentos lutam contra os nossos próprios desejos e limitações.